22. Viva o Oriente!


Na base do Universo há dois princípios complementares, 
Ha e Tha. Nascem assim o claro e o escuro, 
o frio e o calor, o masculino e o feminino...


A engenhoca eletrônica dessa foto é um objeto inspirado em outro, muito simples e de madeira, que você pode encontrar em qualquer feira de produtos orientais. Trata-se de um massageador de pés, um apetrecho cuja origem data de milênios, na China, no Japão e em outros países do oriente. Há alguns anos, o conceito foi absorvido pelo ocidente e hoje você encontra imitações inspiradas nesse simples objeto, mas muito sofisticadas e caríssimas, inclusive com hidromassagem. O da foto, mais modesto, custa por volta de 1 Barão...

Eu - você já me conhece - prefiro o de madeira. rs

Os orientais são mestres na arte da massagem e principalmente da auto-massagem, que é na minha opinião uma das chaves da saúde. Também na minha opinião, nenhum aparelho automático é mais eficiente do que o manual, que exige atenção e percepção de quem se beneficia do uso. Entrar no piloto automático, ou seja, fazer uma coisa e pensar em outra, não ajuda quem precisa se livrar de uma dor ou desconforto. Esse é na minha opinião um dos males do nosso tempo: evitar refletir sobre o que incomoda e buscar uma distração, ou seja, "espairecer", enquanto o problema continua ali...

Outro apetrecho que uso quase diariamente é um martelinho, também de madeira, para massagear as costas, que você também compra em feira de produtos orientais, mas já o vi numa daquelas gloriosas "Lojas do Real", onde adoro fuçar e encontrar surpresas. Às vezes, um objeto simples e barato é muito mais valioso do que um similar sofisticado e caro. O real valor está na utilidade e no uso, pois também não adianta comprar e encostar...

O chinelinho da foto abaixo, que você encontra facilmente no bairro da Liberdade, aqui em São Paulo, proporciona um tratamento completo de Reflexologia - massagem oriental dos pés - e já tem imitações de marcas poderosas, que desenvolveram modelos sofisticados e X vezes mais caros, pois o objetivo é o lucro e não o bem estar das pessoas...


Esses objetos, apesar de aparentemente singelos, estimulam fortemente a energia do organismo, cada um a seu modo.

Comecei a me interessar pelas práticas de saúde do oriente na década de 70, a partir do Yoga. Frequentei várias academias e fui colecionando frustrações, mas não sou do tipo que desiste. Havia uma tremenda falta de conhecimento e de seriedade a respeito do assunto, naquela época. 

No primeiro curso que frequentei, as aulas eram absolutamente impessoais. Executavam-se automaticamente as várias posturas de yoga - asanas, como uma ginástica qualquer, sem orientações ou esclarecimento. No final da aula, tocavam um irritante disco que rangia numa velha vitrola, para criar um clima vagamente oriental e encaminhar o relaxamento e a meditação, tratados apenas como rotina. Insuportável! Caí fora rapidamente.

Numa outra academia vendavam os olhos dos alunos para facilitar a concentração. De tempos em tempos, molhavam o peito dos participantes com substâncias purificadoras. Hoje a lembrança me dá vontade de rir, mas isso me incomodou sobremaneira, pois fazia muito frio. Larguei imediatamente o curso.

Onde me afinizei (o Google me informou que esta palavra não existe, mas vou usá-la assim mesmo, rs) foi na academia da Ilka Machado, com quem já havia feito um curso de do-in, aquela auto-massagem que pode ser resumida como acupuntura com os dedos. As aulas da Ilka sempre iniciavam com bate-papo e conhecimentos, não havia práticas místicas. Tudo podia ser discutido e esclarecido. Após a aula, tomava-se um chazinho e no ínterim dirimiam-se dúvidas. Quando alguém estava com problemas de saúde, ganhava de quebra uma mini-sessão de shiatsu (o mesmo que do-in, porém quem faz a massagem é outra pessoa). A Ilka era uma mãezona! Ficaram famosos os sanduichinhos que ela oferecia após as aulas, delícias de pão integral com recheio de hortaliças cruas, misturadas com creme de leite ou ricota. Vi pessoas mudarem os hábitos alimentares devido à degustação oferecida nos cursos da Ilka. Mas o saldo mais positivo era a atmosfera de amizade que se formava entre todos. A gente conseguia esquecer o corre corre diário, saia da aula em estado de ânimo e otimismo. A última meia hora era dedicada ao relaxamento e algumas pessoas tinham vidências ou premonições, outras chegavam até a dormir. A Ilka não se incomodava com nada, achava tudo normal. Antes do relaxamento, ela cobria todos os alunos, um por um, com uma manta, para que o corpo não esfriasse, e quando alguém pegava no sono deixava que acordasse sozinho. Pode-se pensar que isso nada tem a ver com a prática de Yoga, mas, como a Ilka sempre repetia, tudo o que une as pessoas é Yoga, bem como tudo o que faz alguém encontrar a si mesmo.

Antes de praticar Yoga com a Ilka, e até por desacreditar das outras academias que havia frequentado, procurei informação nos livros e me encantei com uma figura fascinante, um mestre que conseguiu adaptar os conhecimentos de Yoga à compreensão e realidade ocidentais. Pois, no fundo, essa é a questão para nós que não vivenciamos essas práticas orientais, nem conhecemos sua filosofia como os nativos dos países onde foi concebida.

Esse mestre é Hermógenes*, um brasileiro ex-professor de história e filosofia, falecido em 2015 aos 94 anos. Ele já entrou na história, como uma das autoridades de Yoga no Brasil e no mundo ocidental. Hermógenes começou a praticar Yoga de forma autodidata quando já estava na meia idade. Em suas próprias palavras, era um ex-tuberculoso, ex-gorducho, ex-angustiado, que após essa iniciação conseguiu resultados extraordinários, a partir de curiosidade e força de vontade. Ele quis compartilhar seus conhecimentos com outras pessoas e começou a dar aulas numa garagem, até abrir sua primeira academia de Yoga, na década de 60.

Através de muitos livros, Hermógenes esclarece que Hatha-Yoga é uma terapia em que a concentração, o equilíbrio e a saúde são conquistas graduais. Em Auto-perfeição com Hatha-Yoga ele informa desde as origens do Yoga até a execução dos principais asanas, exercícios de respiração etc. O enfoque é científico, ou seja, há uma explicação detalhada da atuação de cada prática sobre o corpo e a mente, bem como eventuais contra-indicações. É um dos meus livros de cabeceira, que esclarece dúvidas fundamentais.

Dentro das várias modalidades de Yoga, Hatha é a que se preocupa com a união entre o corpo e a mente, com a manutenção e a qualidade da vida física através do equilíbrio de energia. Ha seria a corrente positiva de energia, enquanto Tha é a negativa, sendo o mesmo conceito do Yin Yang do taoísmo chinês.

A energia cósmica se manifesta em dois elementos aparentemente opostos, mas na verdade complementares, HA e THA, que permeiam todo o universo, produzindo assim fenômenos como o frio e o calor, o masculino e o feminino, o claro e o escuro, o leve e o pesado, e assim por diante. Mas a fusão desses dois elementos fica bem clara quando pensamos que nada é tão frio ou quente, nada é tão leve ou pesado, ou seja, tudo pode ser temperado, e é assim que HA e THA trabalham em conjunto para harmonizar o universo.

O equilíbrio entre esses dois elementos da energia cósmica produz um jogo de forças dinâmico e sujeito a constantes transformações. Hatha-Yoga é, em suma, um jogo de posturas, tanto físicas quanto mentais e emocionais, visando a paz interior e a saúde. Trata-se de um tratamento completo de saúde, se o instrutor for bem esclarecido e conhecer bem cada um dos seus alunos. Nisso pesa também sua dedicação em criar um vínculo especial com eles. Yoga não pode se resumir a simples negó$io!...

Os movimentos de Yoga são lentos e os asanas não consistem na repetição, mas em permanecer numa determinada postura o maior tempo possível, sem forçar o organismo, deixando que ele se adapte gradualmente a cada movimento. O mais bem sucedido em Yoga não é aquele que executa uma postura com visível perfeição estética, mas aquele que sente a transformação interna provocada pelo movimento, com efeitos cada vez mais profundos e eficazes. Faço aqui uma comparação com o método Consciência pelo Movimento, de Moshe Feldenkrais*, que parte de pressupostos diferentes, mas atinge resultados muito parecidos.

Dentro do conceito yogui de saúde, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. As doenças são desequilíbrios da energia vital, quando esta se acumula exageradamente em determinados pontos do organismo e vem a faltar em outros, como acontece quando há vazamentos numa rede hidráulica. Drenando a energia estagnada e restabelecendo o fluxo natural, a saúde se restabelece.

Entendo que cada conceito de saúde ou doença merece ser conhecido e respeitado, concordemos ou não com ele, pois repousa na observação e na experiência. Toda filosofia de saúde tem um fundo de verdade, o erro é, sempre, querer aplicá-la a qualquer custo ou de maneira radical.

Os asanas de yoga precisam ser combinados com exercícios respiratórios e de relaxamento, só assim atuam beneficamente sobre as funções vitais ou órgãos. O sistema nervoso se beneficia em alto grau com os exercícios respiratórios e de relaxamento, assim como com asanas que atuam sobre a medula espinhal e os vários plexos. Sustar, acelerar e retardar o coração conscientemente não é tarefa para qualquer um, pois o controle do sistema nervoso periférico é muito difícil. Com a prática constante de Yoga adquire-se gradualmente a capacidade de dirigir processos ligados à digestão, à circulação do sangue e da energia. A mente vai aos poucos tornando o corpo cada vez mais dócil a seus comandos, de acordo com a filosofia oriental.

Nosso sistema circulatório, muitas vezes prejudicado pela vida sedentária, por hábitos alimentares inadequados ou pelo estresse, pode ser normalizado com várias posturas de Yoga, que atuam de forma eficaz sobre a circulação do sangue. A mágica é esta:

Ao praticar determinados asanas, fecham-se os registros de um conjunto de vasos e abrem-se os de outros, drenando de um lado e irrigando de outro. As partes do corpo onde o sangue é represado são aliviadas, as áreas com circulação deficiente são alimentadas e as toxinas são eliminadas pelas vias normais.

O princípio do equilíbrio, que está na base da filosofia oriental, aplica-se também às glândulas endócrinas, pequenos laboratórios químicos que produzem hormônios. A hiperatividade das glândulas é Ha, enquanto a hipoatividade é Tha. A saúde, onde os braços da balança se equilibram, é Hatha. A prática de Yoga pode contribuir para o equilíbrio de cada glândula e de seu conjunto, produzindo aparentes milagres como o parto sem dor, uma realidade que é a soma de preparo físico, relaxamento, boa produção hormonal e oxigenação do sangue.

Não quis fazer aqui a apologia do Yoga, apenas esclarecer alguns fundamentos de uma antiga ciência muitas vezes considerada apenas uma forma de exercício físico, ou até mesmo uma mera prática mística. Eu mesma teria uma imagem distorcida do Yoga, não fossem os livros do Hermógenes e as aulas da Ilka...

Atenção: De qualquer forma, é bom tomar cuidado, pois muitos asanas têm contraindicações, podem ser inadequados em casos de desequilíbrios graves da saúde! Dificilmente os instrutores alertam sobre esses perigos, os livros do Hermógenes são muito claros nesse sentido. Além disso, Hatha-Yoga tem também seus limites e precisa ser acompanhado de hábitos saudáveis, senão os efeitos são apenas passageiros. Saiu da aula à noite e assaltou a geladeira?... Possivelmente a noite não será tranquila... rs

As práticas de saúde que vêm do oriente são muito diversificadas e já chegam ao ocidente diluídas pelas diferenças culturais, mas sempre me fascinaram. Ao longo da vida, procurei conhecer as que pude. Pratiquei Lian Gong no Parque da Granja, faço auto-massagem Do In aqui em casa, uso diversos apetrechos como os que fotografei acima e já passei por diversos acupunturistas, todos chineses da gema. rs

Às vezes, quando as crianças eram de colo, minha coluna resolvia pedir socorro. Pois é, durante um período de seis anos fui carregando três bebês gorduchos na barriga e no colo, amamentando um e correndo atrás de outro... Quando minha caçula tinha quatro meses, minha coluna pifou de vez. De uma hora para outra, eu não conseguia dobrar a cintura, o que me causava dores atrozes. O chinês da vez me pôs de pé com suas agulhas, mas advertiu: Você fraca, você mal alimentada. Fiquei pasma e me recusei a acreditar: O quê? Eu cuido muito bem da alimentação, minha comida é integral e bem equilibrada!

Mas o chinês tinha razão. Alguns meses antes, eu havia abandonado a prática de Yoga por falta de tempo. Meu aparelho digestivo tinha começado a relaxar e o metabolismo estava mais lento. Além disso, complementos alimentares importantes como a levedura de cerveja, o germe de trigo e o mel haviam sido completamente abandonados, após a última gravidez. Os músculos das costas foram perdendo flexibilidade, andaram contraindo aqui e ali devido aos repetidos esforços de pegar as criança no colo ou recolocar no berço, várias vezes ao dia. Sem os benefícios do Yoga minha respiração ficou mais curta, e fui descuidando da postura durante a amamentação. Você já passou pela situação de estar amamentando um bebê e ao mesmo tempo levar seu outro filho pequeno ao banheiro?... rs Nessa fase da vida, eu tinha outras preocupações do que a minha saúde... O sangue não estava irrigando os músculos com a mesma intensidade e a redução de oxigênio aumentou o nível de toxinas do organismo. Tudo isso pode acontecer, não apenas por carências alimentares, mas pela supressão brusca de algum hábito saudável.

A horta abandonada se enche de mato e pragas. Os espaços vazios sempre acabam sendo preenchidos, de uma forma ou de outra. Assim, quando o organismo é mal cuidado, quando há um desequilíbrio nas Entradas & Saídas, ocorre uma invasão de toxinas, ácidos, gorduras etc., que não se consegue eliminar. É o que se chama de metabolismo deficiente.

No meu caso, em que eu vivia pegando crianças pesadas no colo, a prática de Yoga atuava, entre outras coisas, como lubrificante da coluna, e a brusca falta de exercício criou um impasse. O que fiz, então? Não mudei a alimentação, mas voltei a mexer o corpo, mesmo em casa. Fazia um leve aquecimento, dava pulinhos, rebolava, pedalava na bicicleta ergométrica, fazia exercícios de respiração, alguns asanas mais simples etc.

Mas o susto havia sido pequeno. Após alguns meses me esqueci da crise e voltei a levar a vida de antes. Absorta pelas tarefas do dia a dia, inclusive trabalhando fora meio período, deixei de fazer exercício físico. Alguns anos mais tarde, ao passar por um problema emocional, minha coluna resolvei pifar de novo. Voltei a andar na linha e a partir daí procurei não me esquecer das lições. Tive um longo tempo de bem-estar, até chegar aquela fase da vida de toda mulher, a famosa... menopausa. Essa foi uma etapa de muitos desafios, que vou relatar em novo capítulo.

Para terminar este assunto, mais uma piada. Um senhor jogava futebol somente aos domingos e o médico aconselhou que o fizesse pelo menos três vezes por semana. Após alguns meses, o paciente voltou ao consultório e o médico o achou mais pálido, sem disposição e com uma barriguinha. Que aconteceu?, perguntou. O senhor me disse que não adiantava eu jogar futebol só uma vez por semana, então resolvi parar de vez... 

Cada organismo, cada pessoa tem suas limitações, inclusive de tempo, e elas precisam ser conhecidas e respeitadas. Mas a máquina não pode parar. Aliás, esse é um ensinamento típico da filosofia oriental de saúde.

Nós ocidentais temos um pouco a ilusão de querer atingir a perfeição. Conhecer os próprios limites. no entanto, é o máximo da perfeição que podemos alcançar. Como diz Carlos França*, um psicólogo que prima pela lucidez, um peixe tem inúmeras possibilidades de variar os movimentos dentro do seu meio. Desde que não resolva pular pra fora da água...



* Hermógenes - AUTO-PERFEIÇÃO COM HATHA-YOGA

* Moshe Feldenkrais - CONSCIÊNCIA PELO MOVIMENTO (há outras citações a respeito do grande      Moshe Feldenkrais, em outros capítulos.)

* Carlos França - FORÇA INTERIOR


(Na dúvida sobre a ordem dos capítulos deste livro, volte para o Índice.)


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