21. Espelho, espelho meu!


Precisamos nos libertar da tirania do espelho. 
Afinal, quem tinha essa dependência era a bruxa e
não a Branca de Neve... rs




Deixei uma questão em aberto. Quando sugeri esquecer o espelho por alguns dias, queria dizer que a autoimagem melhora, se nos acostumamos a atender aos alertas do corpo. Com isso, nos libertamos da tirania do espelho. Afinal, quem tinha essa dependência era a bruxa e não a Branca de Neve... rs

Após algum tempo sem ver a nossa imagem refletida, teremos novamente prazer em nos olhar e encontraremos uma imagem muito diferente da anterior. A nossa pele estará mais viçosa, os olhos brilhantes, a face corada. Isto é beleza, claramente visível também no espelho! Após aprendermos a perceber e a atender às mensagens do corpo, a nossa imagem e autoimagem se modificam. A gente não tem mais surpresas ao olhar-se no espelho, pois as duas imagens coincidem.

Também passa aquela ansiedade de precisar ter sempre um espelho ao lado, pois a nossa autoimagem torna-se palpável, não mais apenas visual. A vitalidade a mais que o organismo adquire se reflete em sensações táteis, como músculos mais firmes, articulações flexíveis, pele mais quente, olhos descansados e muitos outros sinais que variam de pessoa para pessoa. 

Quanto ao fato de alguém estar insatisfeito com o formato do nariz ou das pernas, com recheio das nádegas ou dos seios, é um direito que lhe cabe. Muitas vezes essa insatisfação surge na infância, quando preconceitos de terceiros ajudam a formar uma autoimagem parcial ou totalmente negativa. 

Em todos os tempos surgiram mitos estéticos, absorvidos com maior ou menor intensidade por povos ou indivíduos. Além de existirem modelos nacionais ou regionais de beleza, de qualquer forma sempre relativos, acho que cada pessoa merece ter o seu próprio, de repente aceitando-se e valorizando-se, ao complementar sua autoimagem com o brilho da saúde.

Nosso corpo é um organismo vivo cuja aparência reflete o funcionamento dos órgãos internos. A maquiagem nem sempre consegue disfarçar as marcas escuras ao redor dos olhos, que têm a ver com o mau funcionamento dos rins. Haja creme para reavivar a pele do rosto, quando falta a secreção de umidade e óleos produzida pelo organismo!

Nada tenho contra maquiagem. Em ocasiões especiais eu uso e até gosto de combinar cores e texturas, mas isso faz parte de um ritual de fantasia que não conseguiria mais cumprir diariamente. De vez em quando, o uso de maquiagem e perfume torna-se para mim uma excitante diversão, como é para as crianças. Aprecio o lúdico e o fantástico da situação. E não dispenso um batonzinho hidratante no inverno, quando o rosto fica mais pálido. Faço porém questão de produtos naturais e veganos, inclusive para a higiene do corpo.

Já usei maquiagem todo dia quando era jovem e trabalhava em multinacionais, onde se exigia uma aparência impecável, seja lá o que isso signifique... rs Hoje, usar maquiagem com frequência me incomoda: a pele repuxa, os olhos começam a piscar além da conta, os lábios ficam pesados... Prefiro também a visão de alguém de rosto nu, do que tentar adivinhar como é atrás de várias camadas de blush, pó, base para maquiagem etc. O que realmente acho bonito é o olhar limpo, a pele transparente, os cabelos brilhantes. E tudo isso independe de maquiagem. Ou de idade. 

Minha avó, aos setenta anos, tinha lindos e luminosos olhos azuis, a pele rosada e cabelos brancos sedosos. aliás, todos os membros da minha família paterna começaram a ter cabelos brancos na juventude e eu não fui exceção. Minha filha Iara, aos quatro anos, decretou: Cabelo branco é feio! Comecei então a usar Henna e percebi que meus cabelos brancos, além de terem adquirido uma linda tonalidade cobre, tornaram-se dóceis e macios. Uso até hoje. O que a gente não faz pelos filhos?... rs

A Henna é uma planta popular na Índia e em outros países do oriente, um verdadeiro condicionador natural dos cabelos, que ficam mais ou menos avermelhados, conforme a época em que a planta é colhida. De vez em quando misturo café expresso ou chá preto, quando quero escurecer o tom. Além de umas gotas de óleo de coco, que deixa o cabelo muito macio. Um dia peguei umas framboesas e misturei ao composto. Adoro fazer experimentos!

Na sociedade ocidental e consumista a Henna é malvista e chega até a ser caluniada... rs. Conheci cabeleireiros que frequentaram escolas onde se fala que se trata de um produto altamente tóxico, muito mais do que qualquer pintura de cabelos!... Tremendo mal caratismo da indústria cosmética que divulga essas inverdades, e santa ingenuidade de pessoas que têm pouco acesso à informação e que levam a sério tudo que aprendem em cursos de qualidade duvidosa.

Durante anos, Keiko, uma simpática cabeleireira nissei vinha em casa para cortar os cabelos de toda a família. Ela tinha cabelos grisalhos, muito parecidos com os meus e os tingia numa tonalidade castanho-avermelhada. Toda vez que ela cortava os meus cabelos, dizia que ficava pasma de ver como a Henna recondiciona os fios, além de mudar o tom. Dizia também que estava cansada de usar tinturas, que dão tanto trabalho, estragam o cabelo, e que da próxima vez ela experimentaria Henna em si própria.... Nunca houve essa próxima vez. rs

Muitas pessoas gastam fortunas no cabeleireiro com tinturas, mechas, reflexos, perdem inclusive precioso tempo, mas não se decidem a provar um produto natural, barato, prático e de uso rápido como a Henna. Concordo que algumas marcas possam ser adulteradas, mas muitas pessoas não experimentam o produto por preconceito e pela pressão que a indústria cosmética faz sobre os profissionais da área. 

Já disse em outro capítulo que não acredito em tabelas padronizadas com a indicação da quantidade de nutrientes diários necessitados para manter a saúde, entendo que tudo é relativo. Da mesma forma detesto critérios estéticos pasteurizados que determinam os tipos de beleza em vigor. Existem pessoas que se tornam eternamente infelizes com seu visual, devido a esses padrões, que inclusive atingem profissionais da beleza. Alguém lembra das últimas décadas do século passado, quando as modelos eram obrigadas a serem super-magras e de vez em quando alguma morria de inanição?...

Pensa-se comumente que não é possível perceber o funcionamento dos nossos órgãos internos, que trabalhariam independentemente da nossa vontade. Concordo que não temos propriamente um controle desses mecanismos, mas, desenvolvendo a atenção e a percepção, podemos estar alertas e evitar falhas ou problemas. Uma tarde, sem mais nem menos, tive uma forte dor de cabeça que durou até de madrugada, me impedindo de pegar no sono. Na manhã seguinte eu ainda tinha uma sensação de peso na cabeça, também haviam aparecido espinhas estranhas na pele do rosto.Tomei água pura e fiz um jejum matinal. Ao meio dia já me sentia melhor e procurei entender o que teria ocorrido. Assim, percebi que naquela semana eu havia ido três vezes ao centro da cidade, o que costumo fazer no máximo algumas vezes por mês. Nesses três dias eu andara durante umas três horas no sol e no meio da poluição.Meu fígado resolveu então decretar o estado de alerta que causou a dor de cabeça. 

Nos dois dias seguintes, a minha digestão ainda estava um pouco difícil e eu não conseguia comer nada além de alimentos crus e iogurte. Não forcei! Essa dificuldade de comer foi uma mensagem do corpo que me impediu de complicar a situação, ao ingerir, por exemplo, carboidratos e proteínas. Se fizesse isso, eu teria interrompido o processo de depuração do fígado, sobrecarregado pela poluição, e estaria acrescentando novas toxinas ao sangue...

Nessa situação eu fui pega de calça curta, ou seja, não consegui evitar a chegada do mal estar, mas a experiência valeu pelo esclarecimento. Quando os órgãos internos estão em sintonia com a nossa vontade, a sensação de bem estar é tão grande que podemos perceber facilmente os alertas do corpo para alguma situação incômoda. Isto ocorre por exemplo quando percebemos a hora certa de parar de beber durante uma reunião com papo muito agradável, ou parar de comer exageradamente. Quando existe essa ligação digamos secreta, mas possível de ser detectada, parar de comer ou beber nessas horas não é nenhum sacrifício, antes uma necessidade, pois algo começa a incomodar e criar um desconforto. Sentimos que se trata de uma ameaça à nossa beleza interna e basta um pingo de bom senso para afastá-la. Vai me dizer que tem graça acordar com dor de cabeça, de estômago ou com o intestino cheio de gases?... rs

Parece-me que só quem perdeu a ligação secreta com o funcionamento de seus órgãos internos não se incomoda que seu estômago fique inchado como um barril, lamentando apenas que o médico tenha recomendado diminuir a quantidade diária de cerveja ou de massas.

Um dia eu estava conversando sobre isto com um conhecido que dizia estar triste por não poder fazer o que mais gostava - tudo o que é desaconselhado a quem já teve ameaça de enfarte. Percebi que não acreditou quando lhe disse que eu me norteava pelo sentido do prazer, e não adiantou ficar explicando...
Olha, adoro gnocchi, uma quiche, um queijo especial, um chopp escuro, um vinho do porto, um bolo de reis, saboreio tudo com extremo prazer, mas quando meu estômago dá o alerta sinto a necessidade de parar, também com prazer. E arremato tudo com um bom café expresso. Delícia!

As situações em que me sinto feia são estas: quando a digestão está difícil, o intestino com gases, a língua suja, olhos e cabelos sem brilho, a pele com cravos e espinhas, unhas fracas... Quando isso está em ordem, nada me abala, nem mesmo os comentários mais ferinos sobre meu desleixo ao me vestir ou à minha teimosia em manter o cabelo curto a ponto de lavar, ajeitar com as mãos e pronto. Minha autoimagem independe de comparações.

Você pode argumentar que isso deságua no clássico conceito que identifica o belo com o bom ou o útil. Aceito a observação, nunca pretendi ser original...


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