19. Viva o pronto-socorro!


Precisamos refletir e lutar por uma 
medicina de urgência eficiente e igual para todos,
neste país marcado pelas desigualdades.


Hospital Evaldo Foz, antes da queda

Meu primeiro contato com o pronto-socorro, enquanto mãe, foi bem tardio e traumatizante. André tinha nove anos e nunca havia tomado sequer uma injeção, um comprimido, nem mesmo havia pisado num consultório médico, pois a última vez que o levara ao pediatra ainda não andava. Explico isso nos capítulos 7. Saúde = Educação e  10. Intuição, volte para lá, caso ainda não tenha lido.

Foi num sábado à tarde, que tornou meus outros sábados à tarde, durante vários anos, amargos e angustiantes. André estava brincando com um amiguinho no jardim do prédio em frente de casa, quando de repente sumiu. Após procurá-lo por todos os meios e ter visitado todos os prontos-socorros da região, o encontramos à 1h00 da madrugada num hospital afastado de casa. Ele havia sido deixado lá por um taxista que informou nome e telefone falsos. Provavelmente, o táxi o atropelou e o motorista escolheu aquele pequeno hospital da periferia por não haver controle policial, para não ser responsabilizado.

Ainda assim, sou imensamente grata àquele homem por ter socorrido meu filho e mais grata ainda ao hospital, por não ter-lhe dado nenhuma medicação, avisando a Polícia Civil e aguardando a nossa chegada. 

Tão logo localizamos André o removemos para o pronto-socorro do nosso convênio, que na época era o Hospital Evaldo Foz, referência em atendimento nos anos 80-90. Ele estava de olhos abertos, mas em coma. Não reagia às nossas palavras, nem fazia qualquer movimento. Imediatamente, foram feitas radiografias que mostraram uma fratura na clavícula esquerda. As pernas estavam cheias de arranhões, porém o mais grave foi revelado por uma tomografia do cérebro: um hematoma extra-dural, pequeno, mas que poderia se espalhar e causar a morte do meu filho. O hematoma poderia também regredir, o que permitiria a André voltar à consciência, sem sequelas. O médico nos explicou tudo isso e deixou que resolvêssemos se operar logo o hematoma, com os riscos que sempre envolvem uma cirurgia desse porte, ou aguardar, eventualmente vários dias, na esperança de que o organismo conseguisse superar a crise. Decidimos esperar, mesmo porque o médico disse que as condições de saúde do meu filho eram excelentes, o que poderia ser um bom sinal de que a cirurgia não fosse necessária... Mas foi.

André ficou quatro dias deitado numa cama de hospital, com o soro ligado na veia, sem se comunicar, o olhar totalmente ausente. Foram os piores dias da minha vida, em que fiquei grudada àquela cama na esperança de que aparecesse algum sinal de vida.

Depois desse tempo, ele começou a ter pequenos sinais de inquietação, que foram interpretados pelo médico como a possibilidade de evoluir para um quadro mais grave. Imediatamente decidimos pela cirurgia. Tudo correu bem e no dia seguinte André acordou balbuciando coisas estranhíssimas. Ele pedia socorro e repetia que queria ir para Acapulco... Comecei a conversar com ele e constatei que não me reconhecia. Entrei em pânico. Perguntei o que queria fazer em Acapulco e ele respondeu que lá era sua casa, que ele queria nadar... Aos prantos, busquei o médico, e ele esclareceu que isso era perfeitamente normal, no pós operatório. Fiquei aliviada, mas não custaria nada ele ter-me avisado, certo?... rs

Segundo o médico, meu filho iria recuperar a consciência aos poucos e ainda falaria muita coisa sem sentido. Tomei coragem e comecei a contar para ele que eu era sua mãe, que ele tinha duas irmãs, falei os nomes, o endereço de casa, o nome dos amigos que estavam mandando abraços. Ele escutava e não falava nada, mas parecia interessado. De repente, André começou a repetir o que eu dizia e me apavorei de novo, ao que o médico disse que também era normal... 

Até então, meu relacionamento com os médicos e enfermeiros do hospital havia sido excelente, muito além das expectativas. Afinal, esse lugar estava sendo nosso segundo lar e aos poucos me adaptei e me admirei com a competência da equipe, a modernidade dos diagnósticos e tratamentos. Praticamente, meu filho não havia tomado nenhum remédio até se preparar para a cirurgia e, mesmo após, fui informada de tudo o que lhe seria ministrado, pois mencionei que ele nunca havia tomado medicamentos farmacêuticos, vacinas etc. Ao contrário do que esperava - em vista das anuais broncas que eu recebia  na escola por falta dos certificados de vacina... - vi aprovação nos olhos e nas palavras dos médicos e enfermeiros, inclusive da nutricionista, que ficara admirada com o saúde de André. No dia seguinte à cirurgia, seu intestino já começara a funcionar, apesar dele estar tomando apenas alimentos líquidos. A nutricionista foi muito compreensiva, aceitando que eu levasse para o hospital comidas vegetarianas, iogurte feito em casa, mel, suco de uva natural, as frutas que meu filho gostava etc. Ela também só lhe mandava sopas sem carne e assim ele ficou conhecido como o menino vegetariano.Com uma coisa não consegui competir: a gelatina do hospital, que André tomava aos litros, desprezando aquela que eu levava de casa, à base de agar-agar. rs

Aos poucos, ele começou a reconhecer todos nós de casa, mas estranhava outras visitas e muitas vezes ficava agressivo, o que nunca foi da sua índole. Preocupava-me principalmente seu modo de falar, às vezes arrastado, outras truncado...

Depois de dez dias de hospital, André estava bem recuperado fisicamente e simplesmente doido de vontade de sair de lá. Ele ia do quarto para a sala de televisão como um bicho enjaulado e repetia constantemente: Quero voltar para casa, brincar com meu lego... 

Essas repetições ainda me deixavam preocupada, mas o médico me tranquilizava, dizendo que a experiência do hospital estava sendo traumática para meu filho, que ele se sentia deslocado e que em casa tudo voltaria ao normal.

Finalmente, doze dias depois do atropelamento, duas boas notícias: a alta e a constatação de que a clavícula havia se consolidado naturalmente. Duas recomendações apenas: tomar por mais alguns dias um remédio anti-convulsivante e repousar por algumas semanas, evitando novos acidentes.

André não acreditou: das dez da manhã - hora da alta - até meio dia, ficou rondando por todo o andar do hospital, choramingando e repetindo: Vou embora. Por que meu pai não chega?...  Chegando perto do elevador, começou a repetir: Meu pai não chega. Vou embora. Vamos!

Percebendo que ele falava sério, e que tentaria fugir pelo elevador ou pela escada, quase fui falar com o médico, mas tomei outra atitude. Telefonei para meu marido, preso numa reunião de trabalho, e disse que voltaria para casa de táxi. André começou a repetir: Vou embora. Vou de Táxi. Vamos!... 

Deixei para me despedir de toda a equipe um outro dia, peguei nossas coisas e voei com ele para a rua, segurando sua mão com firmeza para que não corresse atrás de um táxi qualquer, pois parecia alucinado.

O taxi não demorou e, ao chegar em casa, André começou a chorar. Pensei que fosse de emoção e fiquei também com um nó na garganta. Depois de vários dias comentei esse fato com meu filho e ele respondeu que havia chorado porque batera a testa na porta do táxi, na hora de descer... rs Outra coisa que virou piada em casa foi a vontade dele ir para Acapulco: não se tratava de nenhuma lembrança de vidas passadas, mas... da referência, muito forte em seu subconsciente, dos episódios de Chaves, que ele vivia assistindo na tevê. rs

Bem, ao chegar em seu quarto após aqueles quatorze dias de hospital, André se atirou sobre o lego e começou a brincar furiosamente. Havia retomado seu território. Horas depois percebi algo muito interessante: pela primeira vez depois da cirurgia ele estava falando com calma e naturalidade, sem repetir nem truncar palavras ou frases... Daí me dei conta que, na pressa, eu havia esquecido de pegar a receita do tal remédio anti-convulsivante, que já devia ter perdido o efeito no organismo do meu filho.

A minha intuição me confirmou assim, num relâmpago, que a repetição de palavras e outros aspectos estranhos à personalidade de André teriam sido provocados ou acentuados pelo medicamento. Senti que não vinha ao caso correr atrás da receita e não fui, principalmente porque ele estava muito tranquilo e de fato não teve convulsões. Teria ido buscar a receita, se sentisse que alguma coisa estava fora do lugar, e certamente, se os efeitos estranhos tivessem tido continuidade.

A recuperação da cirurgia foi extraordinariamente rápida. Ajudaram muito os mergulhos de piscina e os banhos de sol que André tomou durante todo o verão, fortalecendo o organismo e criando defesas. Logo, o acidente foi uma página virada, mas confesso que, durante vários anos, ficava angustiada quando não sabia exatamente onde meu filho estava...

Quero deixar claro que André nunca nos deu trabalho... com respeito á personalidade. Sempre foi um menino encantador, muito sedutor mas sem manipulações, passou pela adolescência sem os transtornos de praxe... No entanto, eu diria que foi um especialista em apuros, o que lhe rendeu muita experiência de vida: quebrou braço e perna, caiu da bicicleta e ainda hoje tem uma tremenda cicatriz atrás da perna esquerda, foi vítima de um enxame de abelhas, mas por sorte teve a presença de espírito de tirar a camiseta e jogá-la longe, afastando os insetos. O segundo acidente mais grave de sua vida ocorreu aos onze anos de idade: ele caiu para dentro de um telhado de seis metros de altura, ao perseguir uma pipa junto com os colegas. Foi um verdadeiro milagre: ele saiu andando, sem fraturas, mas, isto sim, com um belo corte no queixo e outro no braço...

O pronto-socorro já não era um lugar desconhecido. Na sala de espera, surpresa! Esbarramos no neurologista que operara André dois anos antes. Ele não reconheceu meu filho na hora, mas quando lembrou do caso, o médico ficou emocionado. Esses encontros, na vida, não podem ser mera coincidência... Em lugar de uma bronca, o cirurgião passou a mão na cabeça de André e disse carinhosamente: Campeão!

O tratamento, porém, foi doloroso: o médico do pronto-socorro disse que o corte no queixo era profundo e que não poderia fazer uma costura qualquer. Veio então uma cirurgiã plástica e fez um trabalho tão primoroso que quase não deixou marca. Mas ele sentiu muita dor! Teve que tomar umas dez injeções de anestesia, que aparentemente não fizeram efeito, pois a cirurgiã costurava e o menino chorava e gemia, apertando minha mão até doer. O braço foi também costurado da mesma forma, com injeções de anestesia e gemidos.

Refletindo sobre esse novo acidente, pensei: da outra vez, André ficou doze dias no hospital, mas não sentiu dor física. Tento que costumava relatar o caso assim para as visitas: Não me lembro de nada. só que estava dormindo em casa e acordei no hospital... Dessa vez ele voltou para casa no mesmo dia, mas chorou duas horas seguidas durante as cirurgias. Acho que a experiência valeu, porque depois disso ele parou de se meter em encrencas.

Enfim, para casos de urgência, viva o pronto-socorro! Ou melhor: viva um pronto-socorro bem organizado, com uma equipe atenciosa e capacitada. Tive sorte, ou melhor, sou uma pessoa privilegiada neste país marcado pelas desigualdades, onde a população é prejudicada por interesses contrários aos públicos. A assim chamada medicina de grupo constitui um instrumento muito eficaz na separação das camadas sociais, mas de forma alguma garante a continuidade de bons serviços! Nas últimas décadas, vários planos de saúde foram falindo, num efeito dominó que a população parece não perceber e que é bem abafado pela mídia. A privatização não passa de uma ilusão!

O Hospital Evaldo Foz, que era referência em atendimento, e que tratou do meu filho com tanta eficiência, foi decaindo até finalmente ser fechado, quando a Interclínicas, que o mantinha, faliu. Desde então, seu prédio avariado e abandonado ostenta com clareza o fracasso da medicina de grupo! Pendengas jurídicas e a inércia governamental impedem que ele possa voltar a funcionar como hospital público, enquanto a população de baixa renda não recebe atendimento mínimo no SUS, um projeto excelente no papel, mas propositalmente deixado ás traças para que as camadas sociais continuem bem demarcadas. Da mesma forma, muitos que tentam fugir do descaso governamental e se matam para pagar um plano de saúde barato, são tratados pior do que na rede pública...

Precisamos refletir e lutar por uma medicina de urgência de qualidade e igual para todos, neste país dos privilégios!

No que se refere à manutenção da saúde, continuo preferindo os métodos naturais e achando absurdo encaminhar ao pronto-socorro um povo desnutrido, condenado a viver sem saneamento, nem orientação básica para prevenir doenças. E aqui vai um voto de louvor à medicina de Cuba, que chegou ao Brasil para ajudar justamente na prevenção, no que é imbatível. Parabéns, médicos cubanos, vocês estão fazendo a diferença em regiões para onde os médicos daqui, preguiçosos e mal acostumados, se recusam a ir!...

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