15. Geração de vida


A maneira de reverter o enorme número de 
cesarianas feitas diariamente no Brasil é voltar a
considerar a gravidez e o parto como estados normais
e enriquecedores na vida da mulher.




Apesar das campanhas realizadas periodicamente, o número de cesarianas feitas no país continua absurdo, muitas vezes por opção das próprias mulheres. Nas maternidades particulares, de cada 10 partos, cerca de 8 são cesarianas. Fica a impressão de que o parto é uma doença e que o bebê é uma espécie de tumor a ser extirpado...

Vejo nisso a deturpação de  um ato natural, função fisiológica de mecanismo tão perfeito como o de qualquer outra, desde que a máquina esteja bem preparada. Estudei muito isso antes do nascimento dos meus filhos e acho fascinante a forma como o corpo da mulher se organiza para realizar o parto.

O cérebro precisa estar bem oxigenado para comandar a produção de hormônios, nas doses necessárias. O sistema nervoso tem que estar equilibrado, o útero e os músculos abdominais, flexíveis e bem relaxados. Tudo isto se consegue através de exercícios de respiração, ginástica e relaxamento, que precisam ser iniciados meses antes do parto. Não é mera questão de sugestão ou intenção, trata-se de práticas diárias, simples e muito agradáveis. Infelizmente, a maioria das mulheres com quem costumo conversar não acredita e muito menos se dispõe a praticar esses exercícios tão eficazes. Garanto: eficazes!

Além da falta de atitude, existe um fator que pode por tudo a perder e coloca a cesariana como a melhor opção: o MEDO. 

Desde menina, a mulher aprende a relacionar o parto à dor e ao risco. E o parto natural não pode ser improvisado com uma paciente apavorada. Ele pode, sim, acontecer com uma mulher que não conheça técnicas de respiração ou relaxamento, mas que esteja calma e tenha boa saúde ou preparo físico, como as dançarinas e atletas. 

Com certeza, porém, um parto natural (sem complicações ou lesões) dificilmente acontecerá com uma mulher descontrolada emocionalmente e que tenha os músculos abdominais ou perineais atrofiados.

A maneira de reverter o enorme número de cesarianas feitas diariamente no Brasil é voltar a considerar a gravidez e o parto como estados normais e enriquecedores na vida da mulher, onde a grande quantidade de hormônios produzidos contribui inclusive para embelezar a pele e os cabelos. 

Os exercícios preparatórios ao parto precisam começar na entrada do quarto mês de gestação e podem até durar uma hora ou mais por dia. É necessário preparo, muito preparo. Por que repito isso? Porque sei por experiência própria, mas o resultado é extremamente compensador e a satisfação, imensa. 

A mãe assim preparada pode dar à luz com serenidade e alegria, marcando esse momento como uma grande vitória. Nós mulheres somos muitas vezes vítimas de um preconceito que se forma na infância, quando ouvimos histórias cabeludas de partos difíceis e demorados, realizados entre gritos de dor e muito sofrimento. Eu também não fui exceção, aliás, a história do meu próprio nascimento me foi narrada de forma dramática, mencionando o cordão umbilical enrolado no meu pescoço e um possível risco de vida para a minha mãe. 

O livro que me abriu as portas para uma nova possibilidade é Parto sem dor, do francês Pierre Vellay*, que traz fotos de várias mulheres parindo com a fisionomia relaxada e até sorrindo. Só acreditei vendo! E não se trata de montagens fotográficas, como muitos pensam. Na França, o parto sem dor é uma realidade há pelo menos meio século. No Brasil, muito mais conhecido, prestigiado e praticado que o parto sem dor, é o parto Leboyer, retratado no livro Nascer sorrindo. O que porém muitos não sabem é como os fatos se desenvolveram. O obstetra Frédérick Leboyer*, também francês, chegou à conclusão de que, se a mulher já não sofria durante o parto, havia chegado a hora de se fazer alguma coisa também pelo bebê, que até então era virado pelo avesso como um coelho e maltratado pelas luzes e o barulho da sala de parto. Os adeptos do parto Leboyer deveriam ser, portanto, também do parto sem dor, que foi uma conquista anterior. Mas não é o que ocorre no Brasil... A mulher continua sofrendo por ignorância e medo, muitas vezes acaba então optando por uma cesariana.

Outro livro que enriqueceu minha experiência foi Yoga e parto, de Eliane Lobato*, o relato de uma professora de yoga que teve suas filhas em casa e sem ajuda médica. Não considero dispensável a presença do médico durante o parto, apenas gostaria de ver as mulheres mais seguras e confiantes nesta hora tão importante para elas e seus bebês, e esse livro é de grande ajuda.

 Infelizmente, o Centro Médico Homeopático David de Castro, onde nasceram meus três filhos, com intervalos de 2 anos entre si, não existe mais. Fiquei muito triste com seu fechamento, pois sentia-me um pouco acionista da clínica, que em nada se parecia com um hospital, embora tivesse um centro cirúrgico muito bem equipado até para eventuais cesarianas e outras intervenções. Sim, pois se uma cesariana for mesmo necessária não é o fim do mundo, e a frustração se apaga com a alegria do nascimento.

Antes que a clínica fechasse consegui levar meus filhos, ainda crianças, para conhecer o lugar onde nasceram, seria muito frustrante perder totalmente essa referência. Talvez o Centro Médico Homeopático David de Castro foi uma experiência à frente do seu tempo, por outro lado minha opção por obstetras homeopatas foi frustrante. No fundo, eu acreditava que eles, por serem de uma linha alternativa, me apoiariam no meu projeto de parto sem dor, mas percebi que não tinham experiência nisso, aliás, na década de 80, no Brasil, ninguém tinha!

Então o parto sem dor foi uma conquista própria e só consegui excelentes resultados na terceira experiência, o parto de Melina, quando porém tive que me confrontar com a ansiedade do médico. Pois é, ele ficou nervosinho, pois nunca tinha visto mãe tão sossegada... rs

Mas vamos aos relatos. No primeiro parto, de Iara, me atrapalhei um pouco com a respiração durante as contrações, pois uma coisa é treinar durante a gravidez e outra, bem diferente, manter o ritmo durante o parto, já que no começo da dilatação é difícil perceber a aproximação de cada contração. No entanto, mesmo com um pouco de dor, o parto foi natural e no mesmo dia pude voltar para casa com minha linda filhota nos braços. Não houve qualquer desconforto ou sequela depois do parto, tudo perfeito!

Durante a gestação de André eu tinha aperfeiçoado técnica e conhecimentos, mas tive que lidar com uma situação inusitada, que porém me ajudou a entender o que são as tais dores do parto e a compreender o medo das mulheres para enfrentar um parto natural. Foi porém uma experiência do tipo acredite se quiser...

Segundo o último exame de ultrassom que havia feito, André poderia tranquilamente nascer até o dia quinze de setembro, não havia dúvidas nem qualquer problema. No dia trinta de agosto veio ao meu conhecimento por meios, digamos, extrassensoriais, que a gravidez já estava a termo e que o parto deveria ser induzido sem demora, porque a vida do bebê corria riscos. Duvidei, pois eu me sentia muito bem, sem contrações de nenhuma espécie, que são comuns nos dias anteriores ao parto e que conhecia perfeitamente, pois não era marinheira de primeira viagem. Além disso, tinha ido ao médico dois dias antes e ele havia afirmado que ainda faltava um tempo. Mesmo assim, lhe telefonei e marquei para passar no consultório na manhã seguinte, por via das dúvidas. Não preciso dizer que passei a noite em branco...

Durante a consulta, o médico verificou que o colo do útero estava ligeiramente dilatado, como é comum quando a mulher já teve um primeiro parto. Essa foi a minha sorte, pois o amnioscópio mostrou que o líquido amniótico já estava esverdeado, ou seja, realmente não havia tempo a perder, o bebê podia entrar em sofrimento! Assim, o médico resolveu fazer um parto induzido, e essa experiência me foi muito útil para comparar essa modalidade com o parto natural.

A indução, realizada por meio de hormônios artificiais, provoca dores e pude entender como isso funciona! Durante todo o processo, que durou mais de doze horas, fiquei o tempo todo com o soro ligado na veia. De vez em quando a agulha escapava e... o trabalho de parto simplesmente parava.

No parto anterior eu podia perceber a chegada das contrações, alguns segundos antes de iniciarem, e assim fazia os exercícios de respiração adequados, que relaxam as paredes do útero. Essa técnica é bem explicada no livro de Pierre Vellay, mas durante esse meu segundo parto eu simplesmente não conseguia perceber a chegada das contrações...

O médico perguntava: Está sentindo a contração?

Eu respondia: Não. Estou sentindo apenas dor.

Ele me olhava como se eu fosse débil mental, pois para ele contração e dor eram a mesma coisa. Tenho conversado com muitas mães que tiveram seus filhos já neste novo século e me parece que nada mudou muito nesse sentido... Durante o pré-natal, a orientação para evitar as dores do parto continua quase nula. Nem os obstetras, nem as mães deste imenso Brasil acreditam no parto sem dor...

Depois dessa experiência incrível que foi o parto induzido, caraminholei muito para entender o porquê daquela dor: foi como se eu estivesse destreinada e fosse obrigada a subir correndo muitos lances de escada. Já no terceiro ou quarto andar, meus músculos estariam congestionados. Na realidade, EU estava preparada para o parto, mas meu organismo não. Ou seja, eu havia me preparado durante toda a gravidez, mas por algum motivo ocorrera uma falha no mecanismo biológico que desencadeia o parto, de forma que as minhas glândulas não estavam produzindo hormônios suficientes para que tudo corresse naturalmente. Meu corpo era como um aparelho que estivesse funcionando com pilhas fracas! Para suprir a essa deficiência, foi feita a indução do parto, ou seja, doses cavalares de hormônios sintéticos provocaram as contrações necessárias. Enfim, foi como substituir pilhas fracas por alta voltagem. Tinha mais é que doer, certo?...

E agora vem a explicação. O que é que provoca dores, durante as contrações da dilatação?

É o endurecimento das paredes do útero, causado pela pressão do diafragma e pela tensão nervosa.

Pesquisei exaustivamente e não encontrei explicação melhor. Durante a contração da dilatação, o útero faz um movimento de rotação para cima, como se fosse uma rosca girando. Forçosamente, ele se choca com o diafragma, que exerce pressão para baixo durante a respiração. E até mulheres que não costumam usar muito o diafragma no dia a dia, ou seja, que não têm o hábito de respirar profundamente, durante o parto sentem necessidade de mais oxigênio e acabam forçando o diafragma. E aí, lá vai mais dor...

Por isso, ao perceber que a contração se aproxima, é preciso iniciar a respiração superficial, aquela do cachorrinho, mantendo o diafragma elevado e evitando o choque com o útero. É uma operação mecânica que realmente funciona, posso afirmar por experiência própria. Pois é, no parto normal, as contrações duram alguns segundos e em seguida o organismo pode relaxar, respirando normalmente. Esse ritmo diminui muito a tensão, pois a mulher está no domínio do processo.

Durante o parto de André, que foi induzido, eu não percebia a chegada das contrações, pois não eram os meus próprios hormônios que estavam provocando os movimentos de rotação do útero, mas os artificiais, então a dor era constante e impedia que eu pudesse relaxar.

Mas agora vem o incrível da história! Às quatro da manhã eu estava muito cansada e o soro mais uma vez havia escapado da veia. Obviamente, o meu organismo não estava aceitando de bom grado aquela invasão... rs A dilatação do útero ainda não tinha chegado a dois terços e o médico estava exausto, pois havia acompanhado dois partos na noite anterior. Pois é, parto normal é assim mesmo: não tem hora certa para acontecer nem para acabar. Percebeu mais um motivo para o enorme número de cesarianas que se fazem neste país?...

O médico examinou o estado do bebê e chegou à conclusão de que ele estava muito bem, aliás, dormindo... O quê? Dormindo? Nunca soube de outro caso como esse. O médico sugeriu então algo que só imaginava possível em algum romance de realismo fantástico: seguirmos a sugestão do bebê e tirarmos um cochilo, já que a agulha do soro tinha escapado da veia e o trabalho do parto estava interrompido.

Fiquei pasma com tal sugestão, mas tão exausta que não discuti. Caí no sono como uma pedra e fui acordada às sete e meia...

Tive a sensação de que eu nunca havia dormido tão bem em toda a minha vida! Aquelas três horas e meia pareciam ter sido dez. Eu estava super bem disposta, mas... sem sinais do trabalho de parto. Logo o médico chegou e mandou religar o bendito soro, ou seja, os hormônios sintéticos. Dentro de uma hora André nasceu, chorando loucamente. Eu me assustei com o jeitinho dele, melado a ponto de não conseguir abrir os olhos. Quando a placenta foi expulsa, o médico me mostrou que ela estava começando a calcificar, o que significava que estava mesmo passando da hora, mas tudo correra bem, tanto que pude até ir almoçar em casa. Às 13h fui chegando com o novo bebê no colo e Iara pôde conhecer o irmão. Quando o parto é normal, mesmo induzido, pode-se pouco depois tomar um belo banho, uma boa refeição e já começar a paparicar o bebê.

Momentos como estes permanecem muito vivos na memória, acompanhados de sensações, emoções e cheiros. Nunca, em toda a minha vida, eu saboreei uma refeição com maior prazer do que após o parto dos meus filhos. Aliás, a cozinha da finada clínica, fosse boa ou ruim, eu é que não poderia avaliar, pois para mim tudo estava DIVINO. rsrs
O suco de cenoura com ameixa que me serviram após o parto de André foi inesquecível!

Voltando ao que interessa, alguns pontos do nascimento de André permanecem misteriosos e eu não seria eu se não fosse investigar. Por qual motivo a gravidez estava concluída e o trabalho de parto não iniciou?... O obstetra que acompanhou o processo supôs que tivesse havido a interferência de um medicamento homeopático, a Pulsatilla Nigricans, que ele próprio me receitara por volta do oitavo mês. Nessa fase, o bebê ainda estava sentado e o médico estava preocupado que ele não entrasse na posição certa. A Pulsatilla atuaria no fluxo de energia do organismo, facilitando que o bebê se pusesse de cabeça para baixo, como já estaria na hora. De fato, isso ocorreu após alguns dias.

Analisando todos os acontecimentos, o médico chegou à conclusão de que a Pulsatilla poderia ser uma faca de dois gumes: por um lado ajudaria o bebê a entrar na posição, por outro lado poderia inibir o trabalho de parto...

Parabéns ao obstetra, que pesquisou as causas e foi leal. Ele poderia ter inventado qualquer desculpa que não o comprometesse. Por outro lado, me senti uma espécie de cobaia... E percebi que também esse médico, que já não era o mesmo do meu primeiro parto, estava despreparado para acompanhar um parto natural...

Não me incomoda, porém, ter passado por tudo isso. Foi uma experiência muito interessante, que só teve um inconveniente: as tais dores do parto, que tive a honra de conhecer e enriqueceram meus conhecimentos, mostrando-se aliás bastante suportáveis.

A lógica parece confirmar a teoria da faca de dois gumes, pois o parto de Melina, dois anos depois, foi absolutamente natural, sem transtornos. Não vou negar que no final da gestação fiquei com medo de o resultado do ultrassom falhar, como ocorreu no parto anterior, mas o que me tranquilizou foi um novo exame que naquela época ainda era novidade: a ecocardiografia fetal. Ele avaliou as condições do bebê e não deixou dúvidas de que estava tudo bem, era possível aguardar até o prazo estimado, ou seja, o dia vinte e dois de agosto.

Bem na madrugada daquele dia começaram as contrações e dessa vez eu tirei de letra, sem desconforto nem dor. Até o final da dilatação, que é a fase mais demorada do parto, fiquei caminhando pelos corredores da clínica, conversando com o obstetra, que estava nervosinho e não entendia minha calma. Ele não podia dizê-lo claramente, pois tinha que manter sua postura profissional, mas era evidente que não estava habituado a lidar com uma paciente que ficava passeando até a hora da expulsão. Esse novo médico era muito jovem e não se conformava com o fato de a bolsa ainda estar intacta. Eu já havia pesquisado o assunto e sabia que isso era perfeitamente aceitável. Tentei impedir que ele furasse a bolsa, pedindo que deixasse isso ocorrer naturalmente, mas percebi que o nervosismo dele estava se acentuando, então acabei permitindo que o fizesse. Tudo o que não queria, naquela hora tão importante, era arrumar um conflito.

No final, ele me confidenciou que não entendia porque eu não me preocupava em acelerar o processo, o que na opinião dele evitaria eventuais problemas. Respondi que o parto, para mim, era um acontecimento tranquilo e sem traumas. Ele me olhou incrédulo e disse que todas as pacientes dele, até então, haviam pedido que utilizasse todos os recursos possíveis para abreviar o processo. Meu sossego lhe era mesmo muito estranho e brincou que nunca poderia esclarecer totalmente a questão, pois não teria condições de passar por uma experiência pessoal desse tipo...

Para concluir o assunto, volto a refletir sobre a cesariana como opção pessoal. Pode até ser, desde que a decisão não seja tomada por medo. O medo, parece-me, não deixa lugar para opções.

Depois de abordar assunto tão íntimo, querida leitora ou leitor, e supondo que você teve paciência para me acompanhar até aqui, sinto que entramos em um clima de cumplicidade. Peço-lhe então que entenda meus propósitos. Este livro não pretende ser um tratado ou um fiel relato de acontecimentos. Perceba-o como um rio que traça seu caminho mais ou menos tortuoso, que corre por paisagens diversas, algumas verdes e tranquilas, outras áridas e rochosas, todas porém banhadas pelas mesmas águas.


* Pierre Vellay - PARTO SEM DOR

* Frédérick Leboyer - NASCER SORRINDO

* Eliane Lobato - YOGA E PARTO


(Na dúvida sobre a ordem dos capítulos deste livro, volte para o Índice.)

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