9. Forças cegas!?



Ainda acreditamos na força do micróbio como na 
do diabo. Ora, seria o micróbio um elemento 
soberano na natureza?



Entre as funções conhecidas dos microrganismos está a de desintegrar matérias em estado de decomposição. Eles são portanto coletores de lixo, mais eficientes que os humanos, pois trabalham por conta e interesse próprio, seguindo um instinto seguro. Por outro lado, sua existência é condicionada pelo meio: onde não há lixo que lhes convêm, eles não proliferam ou ficam marginalizados.

Aqui é necessário fazer uma distinção importante: além dos microrganismos bandidos, prejudiciais à saúde humana, existem os mocinhos. Não é segredo que inúmeras bactérias benignas ajudam nosso organismo a funcionar. São as floras bacterianas - bucal, estomacal, intestinal, vaginal e por aí vai. Não há portanto motivo para se apavorar ao ouvir a palavra micróbio.

Infelizmente, ainda acreditamos na força do micróbio como na do diabo. A esse ser microscópico são atribuídos poderes imponderáveis, contra os quais não teríamos defesas. Ora, seria o micróbio um elemento soberano na natureza?...

Já vimos um elemento que tem o poder de eliminar naturalmente os microrganismos prejudiciais: a febre. Ela queima tudo na mesma fogueira: as toxinas que o organismo anda acumulando e os micróbios convidados ao lauto banquete.

A medicina natural esclarece este fenômeno através do conceito do equilíbrio térmico. A temperatura geral do organismo não costuma ultrapassar 37 graus. Acima disso, entende-se que ele entra em estado febril. O organismo saudável tem um bom jogo de cintura, ou seja, provoca febres internas e localizadas onde houver necessidade de queima, desviando ao mesmo tempo o calor para o lado de fora. Assim garante-se que o incêndio será extinto, após a queimada. Quando porém o organismo não consegue drenar todo o calor do interior do corpo para a superfície, a febre interna não se apaga, sem que se perceba algo visivelmente anormal.

De acordo com Lezaeta* e outros sábios naturistas, todo doente crônico sofre de febre interna, não registrada pelo termômetro. Aliás, em geral, percebe-se a febre interna apenas quando ela se manifesta exteriormente, ou seja, nas axilas, virilhas, nas mucosas, na pele etc. A febre externa é portanto fenômeno benigno e sinal de que o organismo está conseguindo desviar o calor para fora, desencadeando um processo de cura. O que acontece, porém, quando a febre permanece apenas interna, ou seja, fica longamente localizada no interior do corpo, sem se manifestar exteriormente? O calor concentrado pode ir desgastando ou afetando órgãos internos e vitais, como o intestino, o pulmão, o coração, o rim...

Às vezes o processo é lento, como na prisão de ventre crônica, quando o intestino apresenta uma temperatura mais alta que o resto do corpo. Desde a antiguidade, aliás, inclusive na medicina oriental, o intestino é considerado o celeiro da saúde. 

Em princípio, a febre interna é mais perigosa para o organismo do que a externa, basicamente curativa. Em síntese, o ideal seria que a cada febre interna se seguisse uma externa, a fim de ocorrer uma limpeza cuidadosa da área afetada e não deixar resíduos, ou seja, toxinas, que, como vimos, são o alimento dos microrganismos prejudiciais à saúde. É necessário porém ter bom senso e não se guiar pelo extremismo, pois muitas vezes, também a febre externa não consegue queimar a contento todas as toxinas. Isto acontece normalmente quando a pele está enfraquecida e tem pouca vitalidade, quando os poros estão congestionados, ou quando o processo de retenção de toxinas é muito antigo, ou seja, quando o problema vem de longe. Cada caso é um caso e não vale a pena cultivar a febre. Precisamos entender como a natureza funciona e auxiliar seu curso, não atrapalhar ou fazer experiências arriscadas.

Durante a febre, a pessoa saudável não costuma sofrer grandes transtornos. Durante a infância, meu filho André teve febre poucas vezes, mas sempre alta. Seu estado febril não apresentava grandes perturbações, ele ficava sonolento, dormia bastante e não se agitava durante o sono, não pedia nada para comer mas bebia muita água e só se levantava da cama para ir ao banheiro. Após essas febres, que duravam geralmente dois a três dias, geralmente acompanhadas de resfriado, André voltava com ainda mais energia (ele sabe do que estou falando... rs) e um apetite voraz, além de ter crescido alguns centímetros.

Quando o estado febril apresenta perturbações, como dificuldade para respirar, agitação durante o sono, dificuldade para dormir, delírio, convulsões etc, é o caso de procurar o médico, pois significa que a febre não está conseguindo realizar a contento seu trabalho de limpeza e que o incêndio poderá causar algum dano, ou seja, prejudicar algum órgão.

Como agir então diante da febre? Em primeiro lugar, evitar o ataque histérico. Esfriar a cabeça e refletir. O bom senso indica que não é aconselhável apagar imediatamente o fogo, pois o trabalho de purificação ficaria pela metade. Mas é o que geralmente se faz, numa atitude às vezes irrefletida.

Suprimir sumariamente a febre não resolve o problema, apenas o adia, ou às vezes complica. Antitérmicos, banhos frios e outros tratamentos de choque agridem as defesas naturais do organismo. Eles são úteis apenas em casos graves e muito bem orientados por bons médicos. Quando usados normalmente e sem real necessidade, o organismo desaprende aos poucos a produzir febre externa, a reagir contra o excesso de toxinas e os microrganismos oportunistas. Em resumo, as defesas naturais tornam-se fracas.

Além se suprimir sumariamente a febre, costuma-se também jogar lenha na fogueira. A febre deve instalar-se no organismo apenas durante o tempo necessário para efetuar a limpeza necessária. A partir do momento em que se manifesta, ela não deve ser alimentada. Caldos de carne, leite, ovos, outros alimentos de origem animal, chocolate, açúcar etc. aumentam o lixo orgânico, além de serem prato cheio para os micróbios invasores. O organismo febril precisa ser refrescado e não superalimentado. A alimentação precisa ser o mais leve possível, baseada em frutas ou legumes, de preferência preparados na hora, sem adição de açúcar. Muita, muita água, de preferência saborizada com uma casquinha de limão ou umas folhinhas de hortelã. Aliás, geralmente a pessoa com febre não sente fome. O organismo é sábio e percebe que a digestão atrapalha o efeito curativo, sobrecarregando o organismo. Já percebeu que a febre sempre aumenta após as refeições?... Os animais evitam comer quando estão doentes, muitas vezes sua cura se dá apenas pela suspensão do alimento, que no estado febril cozinha e fermenta no aparelho digestivo, então não produz sangue bom.

Paracelso já dizia, no século XVI, que o melhor alimento pode se tornar veneno, dependendo da dosagem ou da circunstância.

Existe uma infinidade de pequenos cuidados que podem auxiliar o processo curativo da febre: molhar os lábios da pessoa de vez em quando e oferecer-lhe colheradas de água para beber, com algumas (poucas) gotas de própolis misturadas no copo, refrescar a testa com pano úmido, repetidamente, se isto lhe for agradável. O que não vale é irritar a pessoa com febre, perturbando-a com excessivos cuidados e obrigando-a a engolir o que o organismo rejeita.

Resumindo, há febre e febre. Tanto pode-se tratar de uma pequena descarga de calor, quanto de um difícil processo de cura motivado pelo acúmulo de toxinas durante um longo tempo, desencadeado por agentes externos convidados para um lauto banquete. De acordo com o tipo de invasor, a doença é rotulada de gripe, hepatite, difteria, escarlatina etc, mas, em todos os casos, os micróbios só podem se instalar e vingar em condições favoráveis a eles. Isto é explicado pelo fenômeno da incubação, ou seja, a invasão do terreno não ocorre no ato. Há um espaço de tempo em que temos condições de expulsar o invasor, dependendo da condição das nossas defesas e da ação eficaz dos anticorpos. Wilhelm zur Linden*, em seu livro A criança doente, afirma que algumas aparentes gripes são na realidade leves poliomielites, estados críticos que não progridem, pois o organismo consegue expulsar os invasores, sem que a doença se instale.

Não há forças cegas na natureza, nós é que precisamos aprimorar nossa visão!

É fundamental cultivar as defesas orgânicas, para que o terreno não seja invadido de surpresa. Ou então, mesmo que haja uma batalha, que a vitória seja rápida e gloriosa.


* Manuel Lezaeta Acharán - MEDICINA NATURAL AO ALCANCE DE TODOS (há outras citações a respeito do grande Lezaeta, em outros capítulos.)

* Wilhelm zur Linden - A CRIANÇA DOENTE - A CRIANÇA SAUDÁVEL


(Na dúvida sobre a ordem dos capítulos deste livro, volte para o Índice.)

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