Já dizia Hipócrates na Grécia antiga: seja o teu
alimento teu melhor remédio.
todo integral, e decorado com algumas porcarias para agradar aos olhos. rs
Relendo o que escrevi até agora, percebo que não posso mais adiar um dos conceitos naturistas de maior peso. E que talvez possa responder aquela pergunta intrigante que vira e mexe nos passa pela mente:
Por que, mesmo vivendo nas melhores condições possíveis de higiene, não conseguimos afastar todos os micróbios nocivos à saúde?
Mesmo tendo pensamentos como esse, sou de opinião que esse tipo de pergunta peca pela presunção... Será que a solução de todos os nossos males está em afastar de nós todos os possíveis perigos? Nesse caso, a solução seria esterilizar o ambiente?...
Pausa para caraminholação. Sim, pois somos seres contraditórios e ambíguos, graças a Deus. rs
A dúvida é que nos move, e a reflexão nos permite amadurecer.
Não estará na hora de aprendermos, com a natureza, a fazermos o nosso jogo? Sempre voltados para o exterior, para o que é visível e mensurável, não temos o hábito de olhar para o nosso interior.
A filosofia oriental considera, ao lado da nossa casa de tijolos (ou de madeira, ou de sapê...), onde vivemos e repousamos, uma outra que nos acompanha a todos os lugares. Trata-se do corpo, considerado a morada, o templo do ser. Não é de estranhar que os antiquíssimos conhecimentos sobre a circulação de energia, a rede de meridianos (os canais por onde passa a energia) e a acupuntura, tenham se originado justamente no oriente, onde o corpo sempre foi entendido em suas manifestações vitais. Ao contrário, a formação da medicina ocidental origina-se da dissecação de cadáveres, praticada no Renascimento. São pontos de partida diferentes, ambos muito importantes.
O primeiro foca o organismo em funcionamento, impulsionado pela energia vital, um conceito que até há algumas décadas não era minimamente considerado na civilização ocidental, mas que hoje conta até com a medição de aparelhos eletrônicos. O segundo revela a anatomia do corpo humano, os segredos dos mecanismos e sistemas que nos mantêm em vida, do ponto de vista físico.
Qual o louco que ousa separar nitidamente essas duas vertentes da mesma ciência, que caminham na mesma direção?... São muitos, muitos loucos que fazem questão de manter-se na margem direita ou esquerda do rio, sem banhar-se em suas águas, por medo de... se afogar?...
A contribuição dos modernos conceitos de higiene para extirpar as epidemias do planeta é uma conquista indiscutível. No entanto, há o perigo de se cair em excessos e, neste sentido, a filosofia oriental dá uma contribuição especial: seu conceito de higiene confunde-se com o de saúde e refere-se muito mais à limpeza interna do organismo, ou seja, do sangue, dos intestinos e demais órgãos internos, do que à exaustiva esfregação da pele com sabonetes e água quente, que é o símbolo da higiene em nossa civilização.
Voltando a um ponto importante, já abordado no capítulo Harmonia com o meio, a saúde é fruto da harmonia de cada ser humano com o meio em que vive. E a grande revelação é esta: o meio em que estamos mergulhados se compõe, principalmente (mas não exclusivamente) do alimento que nos nutre.
Somos o que comemos. Esta frase, traduzida da expressão alemã Man ist was man isst, reflete uma verdade que até criança entende. Um dia Iara, aos 4 anos de idade, me surpreendeu com esta afirmação: Comida vira gente, né, mãe? Em compensação, minha neta Marina, também aos 4 anos, se saiu com uma ideia exatamente oposta, mas que também demonstra a inteligência da criança, em sua livre expressão: Eu não vou crescer, porque a comida entra pela boca e vira cocô. rs
Ah, se todos pudéssemos conservar essa liberdade de pensamento ao longo da vida! Mas não, desde a assim chamada idade da razão, e muitas vezes devido a uma escola que nos impinge as cartilhas em uso na sociedade, costumamos abandonar a originalidade do pensamento próprio e nos entregamos ao piloto automático.
Segundo antigas doutrinas esotéricas, a alimentação é a maneira em que cada reino da Natureza se transforma em outro. Assim, o vegetal de nutre do mineral e o animal do vegetal, operando-se transformações fundamentais. Esta seria a maneira em que a vida evolui de um reino para outro.
Cada ser vivo é guiado por instintos mais ou menos rígidos, que o orientam em diversos sentidos, inclusive quanto à alimentação. O ser humano parece-me, nesse sentido, o ser vivo menos natural.
Gosto de imaginar como se desenvolveram as primeiras civilizações e, inevitavelmente, os choques culturais. Provavelmente, na tentativa de se autoafirmar, o homem primitivo só se sentia seguro ao eliminar quem o ameaçava ou contrariava seu modo de ser. Se refletirmos um pouco, veremos que ainda hoje não estamos muito longe desse modelo...
Competitivo desde os primórdios, nosso ancestral foi evoluindo num profundo cultivo do espírito tribal, desenvolvendo esses sentimentos típicos da atual condição humana - o orgulho, o egoísmo, a vaidade, a inveja - sempre mais acentuados à medida que se sentia ameaçado por modelos diferentes.
Muitos casos de antropofagia davam-se com a finalidade de adquirir as virtudes do adversário... Aliás, a antropofagia, essa prática tão primitiva, não foi totalmente eliminada da civilização ocidental. Vira e mexe a mídia divulga novos casos até em países do chamado primeiro mundo. Mas, se ela não ocorre mais com frequência de forma puramente física, ela é muito recorrente em formato intelectual ou emocional.... Nova pausa para reflexão.
Me ocorreu uma pérola da antiguidade: o brinde, hábito entranhado nas culturas de muitos povos e que hoje se reveste de uma certa sofisticação, nasceu como comemoração de guerreiros vitoriosos, que bebiam nas caveiras dos vencidos. Os vikings, por exemplo, batiam as caveiras e brindavam Skol!
Os hábitos alimentares humanos não obedecem a instintos rígidos e são fortemente influenciados pela cultura em que cada um está inserido. Eles vão se formando e transformando junto com a adaptação ao meio. Muitas vezes, a culinária (hoje promovida a gastronomia...) de uma região torna-se uma bandeira exibida com orgulho e defendida com unhas, dentes e colher de pau. Com a globalização, isto está mudando e o intercâmbio culinário entre países floresce junto com o prazer de se fazer novas experiências em alimentação. Ainda hoje, porém, alguns napolitanos - tenho vários em minha família - tremem de horror à simples ideia da pizza preparada com recheios nada tradicionais, que consideram aberrações e traição à receita original. rs
O imenso panorama gastronômico mundial mostra que o ser humano busca no alimento muito mais que uma satisfação puramente física. Existem fatores fundamentais como a socialização, o ritual, a compensação psicológica. O complexo ato de comer, transformando outros seres em si mesmo, precisa ser colocado em lugar de destaque dentro da conquista da saúde, entendida como forma de adaptação ao meio.
Já dizia Hipócrates na Grécia antiga: Seja o teu alimento o teu melhor remédio. Gosto de imaginar que essas palavras foram ditas assim mesmo, de pessoa para pessoa. É necessário enxergar e respeitar as diferenças individuais, pois o próprio curso da história mostra que cada povo, cada cultura, construiu seus hábitos alimentares de acordo com a região onde se instalou, com o solo e o clima do lugar, com o próprio temperamento que caracteriza sua gente.
Desde a antiguidade sabe-se que os alimentos podem conter vida... ou morte. Tudo é questão de peso e medida, de combinação e harmonia.
Desconfio daquelas tabelas padronizadas que determinam a quantidade de nutrientes necessários para uma dieta equilibrada do homem, da mulher e da criança, conforme seu peso, atividade etc. E as diferenças individuais entre seres humanos, que vão muito além de pesos e medidas? Quem é quem para determinar que seu vizinho precisa comer carne de frango, peixe, abobrinhas, quiabo ou giló X vezes por semana?...
Tive o privilégio de viver em três países: a Itália, onde nasci e me criei, a Alemanha e o Brasil. Sou, por assim dizer, italogermasileira. A cada mudança de país precisei fazer mudanças em meus hábitos alimentares e procurei encarar isso como uma festa de sabores, aromas e cores. Essa miscelânea gastronômica me abriu os olhos para a necessidade de fazer minhas próprias escolhas em alimentação.
Hoje em dia eu vou as um restaurante alemão e peço tranquilamente chucrute com provolone à milanesa. E quando bate a vontade, vou ao Zé Garçom e peço uma feijoada sem carne. Como assim, sem carne? Simples: o feijão, a couve, a farinha, o molho... sem esquecer a laranja.
A opção por um ou outro tipo de alimentação é soberana. Além disso, não é necessário jogar fora milênios de experiência e de arte culinária.
Mario Sanches*, em Saúde pela alimentação correta, aponta com lucidez as diferenças existentes e possíveis entre vários caminhos de alimentação. E também mostra como cada pessoa se afiniza psicologicamente com um modelo ou outro. Esse livro é tão antigo quanto meu interesse pela saúde integral, mas ainda hoje se destaca no meio de milhares de publicações que, na minha opinião, mais confundem do que ajudam.
Tenho grande curiosidade e respeito pelos alimentos e sua manipulação. Acho fantástico, quase mágico, que cada país ou mesmo cada região tenha uma tradição alimentar. Gosto de mergulhar na experimentação de pratos típicos - embora eu tenha, como qualquer pessoa, aversão a certos alimentos.
Nasci em Bologna, a pátria de uma cozinha renomada no mundo inteiro. Nunca fui uma bolognesa ortodoxa, mas herdei de minha cidade natal o enorme prazer de comer, que hoje redobra quando o alimento é vegetal, integral e orgânico. Digamos que deixei a preferência por alimentos elaborados e condimentados, muitos de origem animal, que são típicos da cozinha bolognesa, para me deliciar com o sabor, aroma, cor e frescor dos frutos da terra, da forma como são oferecidos pela natureza. O que mais excita meu paladar, hoje, são as hortaliças, as frutas, o mel de abelhas, cereais frescos e pouco elaborados, nozes e castanhas. Sinto toda a vitalidade do alimento cru, que contém preciosas VITAminas. Agora mesmo estou me deliciando com o perfume da casca das mexericas que acabei de comer e deixei de propósito aqui ao lado do micro.
Esse prazer pelos alimentos frescos e crus vem também da outra vertente da minha família, de origem napolitana. No sul da Itália a alimentação é muito diferente que no norte, com razão, pois faz muito mais calor, e a terra de lá oferece os tomates, o manjericão, o salsão, as rúculas, as cenouras e os rabanetes mais saborosos do mundo! E isso não sou eu quem falo, todos que viajam para lá voltam fazendo essa constatação.
Não me tornei vegetariana da noite para o dia, afinal, nasci na pátria do Prosciutto di Parma, essa tentação que me assalta às vezes durante um coquetel ou ocasião especial. Não sinto porém saudades a ponto de entrar numa loja e comprar esse produto.
Hoje, quando vou ao supermercado e passo pelos balcões da carne e dos frios, percebo avalanches de micróbios ameaçadores piscando charmosamente para mim. Pisco de volta para eles e vou cuidar da minha vida. Eles perderam uma carona para os meus intestinos... rs
Bem entendido: sou vegetariana, mas não sou faquir. Também não faço greves de fome. É até bom, às vezes, voltar a sentir o gosto de coisas antigas.
Muito do que sou hoje eu devo a outra bolognesa, minha mãe - ela sim - uma verdadeira revolucionária. Criada na mais pura tradição dos tortellini, da pancetta e da fartura, ela procurou espontaneamente e encontrou um ponto de equilíbrio, limitando ao máximo o uso de gorduras, massas e carnes, dando especial ênfase às hortaliças e frutas na alimentação.
Segundo a medicina naturista e a oriental, o intestino é o termômetro da saúde. Será que o meu seria tão perfeito, se desde que eu era bebê minha mãe não tivesse tido a brilhante ideia de me oferecer, toda manhã, um belo e apetitoso prato de frutas?
As refeições, na minha antiga casa, eram simples mas sempre apetitosas, isso minha mãe conseguia muito bem. As massas e molhos não eram gordurosos nem empapados, os temperos, naturais e variados, carnes e peixes sempre acompanhados de muitos legumes e saladas. Estas eram preparadas com muita variedade diária, usando alfaces de vários tipos, rúcula, rabanete, cebola, tomate, pepino, repolho, cenoura, pimentão, salsão, funcho, beterraba etc. Tudo formava um conjunto que agradava aos olhos e ao paladar. Infelizmente não herdei muitas de suas qualidades... rs
Foi na infância que aprendi a mastigar pedaços de hortaliças cruas, que ficam deliciosas mergulhadas em todo tipo de molho.
Apesar de ser uma cozinheira de mão mais ou menos vazia (rs), gosto muito de observar as inúmeras maneiras de combinar alimentos e também registrei mil formas de comportamento durante a refeição. Elas refletem desde o grau de percepção do paladar, até a importância dada à própria alimentação. Também fui pessoalmente objeto de uma observação desse tipo, uma vez que estava saboreando um sorvete e um senhor me perguntou onde o tinha comprado, tamanha a expressão de êxtase que ele disse ver em meu rosto. rs
Há pessoas que parecem comer por pura obrigação ou horário estipulado. Outras parecem esperar do alimento mais do que ele pode proporcionar, ou seja, algum tipo de compensação emocional, tamanha a avidez com que se atiram sobre o prato. Entre esses extremos, existem inúmeras variações e são frequentes os casos em que a pessoa se levanta da mesa frustrada ou insatisfeita.
Parece-me que o maior ou menor prazer, o grau de satisfação ao terminar-se uma refeição, depende tanto do alimento quando do modo de se alimentar. E o único termômetro só pode ser a percepção pessoal. Não faz sentido querer medir até que ponto outra pessoa saboreou o alimento, ou se a refeição foi satisfatória. Por outro lado, cada indivíduo precisa prestar atenção ao modo como se alimenta, para que a refeição possa se tornar cada vez mais agradável. Comer no piloto automático não é nada satisfatório...
Tenho percebido que uma pessoa extrovertida aproveita melhor o alimento se estiver em boa companhia, por mais que se tente provar que é melhor fazer-se silêncio às refeições. Quem gosta de ler enquanto come não deve deixar de fazê-lo, pensando que isso desvia o sangue da digestão. Eu mesma gosto de ter o duplo prazer da leitura e da refeição, quando como sozinha. Duplo prazer, porque consigo me concentrar nas duas coisas. Como? Mastigando bem devagar, ensalivando cada bocado de alimento. Aliás, aí está um dos grandes segredos da alimentação: desde os conselhos da vovó até à macrobiótica, a mastigação lenta e demorada é consagrada como a melhor forma de se garantir boa digestão e assimilação do alimento. É também o trunfo de quem quer emagrecer ou diminuir a quantidade de comida às refeições, pois quem mastiga bem sente muito mais o sabor do alimento e não fica com a sensação de vazio provocada pela rápida trituração e deglutição; sensação de vazio ou... de peso no estômago, nos dois casos o prejuízo é certo.
Aí também precisa prevalecer o bom senso. Não faz sentido estipular que se deve mastigar cada bocado X vezes automaticamente. Muitos chegam simplesmente à conclusão de que não conseguem mastigar devagar e desistem de tentar. Em lugar de tentativas mecânicas, vale a pena demorar-se um pouco mais a saborear cada bocado, antes de engolir. Aos poucos, a mastigação torna-se mais lenta, sem esforço. Quem come com prazer e atenção levanta da mesa satisfeito e assimila bem o alimento. Será que acontece o mesmo a quem arranja uma discussão durante a refeição, se irrita com leituras desagradáveis ou assiste a alguma cena chocante no telejornal?... Lembro o antigo ditado de que o que entra pela boca é contaminado pelo que está na mente.
Essa sabedoria de que tudo tem que ser feito com prazer, lentidão e atenção, você vai encontrar principalmente nos livros de Moshe Feldenkrais*, esse missionário da consciência pelo movimento, que soube fazer uma releitura de ensinamentos antigos à luz da ciência contemporânea, chegando a soluções tão simples quanto as que relatei acima. Leia também o capítulo 14. A arte de curar.
Se você teve a paciência de chegar até aqui, sugiro que faça uma retrospectiva dos seus hábitos alimentares, para que perceba até que ponto é consciente da sua forma de se alimentar, ou se age de forma adquirida, seguindo uma rotina automática. E a sua alimentação, lhe satisfaz? Lhe causa algum problema de saúde (queimação, refluxo, peso no estômago etc)? Você tem bom apetite, ou geralmente come apenas porque está no horário da refeição?
Essa revisão é necessária de tempos em tempos, para evitar que prejudiquemos nossa saúde ou que aceitemos passivamente mudanças de fora para dentro, seguindo opiniões alheias ou lugares comuns. Precisamos procurar nosso próprio eixo de equilíbrio, pois as consequências dos nossos hábitos alimentares recairão sobre nós mesmos e não sobre os nossos pais, que nos condicionaram, nem sobre quem nos impingiu qualquer modismo. Cada um precisa ter uma visão própria da finalidade e do valor da alimentação. Enquanto não houver um questionamento a respeito, todos tendem a achar ÓBVIO o seu jeito de se alimentar.
Um dia, ao conversar com uma moça sobre a alimentação dos meus filhos, ela se espantou: Como? Eles não comem comida normal? Pedi que me explicasse o que entendia por comida normal. Ela respondeu: Arroz, feijão, o que todo mundo come!
Se essa moça, que era jornalista, tivesse refletido um pouco antes de falar, não teria chegado à conclusão de que todo mundo come arroz e feijão. No entanto, a espontaneidade com que ela se expressou demonstra que havia herdado sem contestação esse hábito alimentar e que não lhe passava pela cabeça que sua alimentação poderia ser, em outras circunstâncias, Knackwurst mit Sauerkraut (salsicha com chucrute).
Fazendo um pequeno parêntese, esclareço que meus filhos sempre comeram TAMBÉM arroz com feijão, que é aliás uma combinação completa, junto com hortaliças, nozes e castanhas. De qualquer forma, as opções alimentares de cada um precisam ser respeitadas - desde que sejam realmente opções e não apenas aquilo que se entende por... normal. Nesse caso, vai bem uma provocação. rs
Já vimos em outros capítulos que a alimentação pobre em nutrientes e rica em aditivos, aos poucos, desgasta o organismo. No entanto, existem pessoas que herdam uma constituição física extraordinariamente forte e cujo organismo só se ressente da alimentação pobre apenas na meia idade ou na velhice. Isso, sim, acontece, mas não serve de exemplo, são exceções que confirmam a regra. É porém direito de cada um preocupar-se ou não com a qualidade de vida. Se alguém prefere viver um dia de leão em lugar de cem anos de carneiro, é um direito que lhe cabe. Aliás, quem pode mesmo estar certo de que terá vida longa?... Não estou aqui defendendo o descaso ou a irresponsabilidade. Apenas acho que ninguém muda DE VERDADE o próprio modo de pensar ou agir, por influências puramente externas. A mudança real vem de dentro para fora. Os estímulos são fundamentais, mas só funcionam quando há sintonia entre o receptor e o... recipiente. Essa é uma lei da Natureza, não apenas um delírio da Giulia. rs
Assim, a escolha do alimento não pode ser imposta de fora para dentro. Se a pessoa faz da própria alimentação um sacerdócio, ninguém tem o direito de contestar. No entanto, sacerdotes gostam de fazer proselitismo, por isso seus adeptos precisam ter senso crítico suficiente para saber onde estão pisando...
A influenciação não refletida pode ter consequências graves ou até levar à morte, como já aconteceu a algumas pessoas que não compreenderam em profundidade os ensinamentos da macrobiótica e se entregaram ao fanatismo. Eu vi isso acontecer há algumas décadas e espero que não ocorra mais... Essas pessoas haviam se imposto regimes ou jejuns mal orientados e perderam a vida antes que pudessem remediar. A macrobiótica é uma bela doutrina, mas é preciso fugir de fanatismo ou extremismos. Naquela época, alguns macrobióticos se embaralhavam na definição do yin e do yang, essas forças que de acordo com a filosofia oriental regem o funcionamento do universo. Para nós, ocidentais, que não recebemos essa tradição dos nossos ancestrais, vale mais a pena compreender o princípio dos opostos que se complementam, do que embarcar em posições rígidas.
Um dia - bem naquela época em que a AIDS ceifava vidas à vontade - fiquei pasma ao ler um artigo de macrobiótica que me colocava, a mim, no grupo de risco que poderia pegar a doença. E por um motivo muito pobre, por ser consumidora de laticínios, considerados uma aberração da natureza. Gostaria de ter revidado para o articulista, dizendo que nunca ouvi falar de alguém que tenha adoecido por consumir iogurte, o glorioso laticínio que há milênios garante a longevidade e a saúde dos povos dos Balcãs. Ao contrário, não posso dizer o mesmo a respeito dos regimes macrobióticos...
Certas generalizações são perigosas, porque põem no mesmo saco coisas bastante diferentes: quem tem o hábito de tomar uma coalhada fresquinha no desjejum, dificilmente se sentirá bem ao substituí-la por uma porção de queijo gorgonzola... Quero dizer que pode existir uma diferença brutal entre um ou outro laticínios - da mesma forma que podem existir enormes diferenças entre seres humanos, mesmo irmãos ou gêmeos. Tudo pode ser consumido, com moderação e bom senso. A não ser que haja uma repulsa natural para um determinado alimento. Essa pode ser uma mensagem do organismo para que se evite uma eventual agressão. Por isso não se pode obrigar uma criança e engolir à força um alimento que lhe dá enjoo. Até porque dentro de algum tempo ela poderá passar a gostar, se não tiver sido forçada anteriormente...
Quem sentir a necessidade de mudar seus hábitos alimentares precisa ter discernimento e não deixar-se levar por pessoas ou programas que prometem efeitos mirabolantes ou imediatos. Se você resolve seguir um regime, precisa ter senso crítico suficiente para avaliar as etapas do tratamento e eventualmente suspendê-lo, se for o caso. Os macrobióticos que me perdoem, mas vou usar novamente sua doutrina como parâmetro, sem ressentimentos... rs Esse regime alimentar pode ter extraordinário efeito desintoxicante, mas é nisso que se encontra o perigo, quando não há uma boa orientação. O processo de eliminação das toxinas não deve ser brusco demais, sob o risco de acarretar consequências graves. O jejum precisa ser bem dosado, pois durante o seu curso o organismo atira na circulação do sangue as toxinas depositadas nos tecidos. Essa enxurrada de toxinas, se não for bem diluída com ingestão suficiente de água ou de sucos de frutas (muitas vezes rejeitados pela macrobiótica...), pode provocar uma verdadeira auto-intoxicação, tão grave quanto for a desidratação do organismo. Se você achava que o jejum mata de fome, saiba que o verdadeiro motivo não é a desnutrição, mas a intoxicação. Já havia pensado nisso?...
Há alguns anos, eu ficava intrigada ao refletir sobre esse mecanismo. Hoje eu sinto na pele como funciona a desintoxicação do organismo. Quando, às vezes, abuso de um alimento que carrega muitas toxinas para o meu organismo, sinto como que uma sensação de secura - não propriamente sede, em toda a boca e no resto do corpo. É como se eu me tornasse mais pesada, enfim, sinto a necessidade de diluir o sangue, de alguma forma. Tomo bastante água, sucos, e às vezes preciso comer frutas com bagaço para me sentir melhor.
Se somos o que comemos, precisamos escolher a dedo nosso alimento. Aqui, também, não adianta chorar sobre o leite derramado. Sempre é tempo de recomeçar, acredite!
* Mário Sanches - SAÚDE PELA ALIMENTAÇÃO CORRETA
* Moshe Feldenkrais - CONSCIÊNCIA PELO MOVIMENTO (há outras citações a respeito do grande Moshe Feldenkrais, em outros capítulos.)
(Na dúvida sobre a ordem dos capítulos deste livro, volte para o Índice.)
Hoje, quando vou ao supermercado e passo pelos balcões da carne e dos frios, percebo avalanches de micróbios ameaçadores piscando charmosamente para mim. Pisco de volta para eles e vou cuidar da minha vida. Eles perderam uma carona para os meus intestinos... rs
Bem entendido: sou vegetariana, mas não sou faquir. Também não faço greves de fome. É até bom, às vezes, voltar a sentir o gosto de coisas antigas.
Muito do que sou hoje eu devo a outra bolognesa, minha mãe - ela sim - uma verdadeira revolucionária. Criada na mais pura tradição dos tortellini, da pancetta e da fartura, ela procurou espontaneamente e encontrou um ponto de equilíbrio, limitando ao máximo o uso de gorduras, massas e carnes, dando especial ênfase às hortaliças e frutas na alimentação.
Segundo a medicina naturista e a oriental, o intestino é o termômetro da saúde. Será que o meu seria tão perfeito, se desde que eu era bebê minha mãe não tivesse tido a brilhante ideia de me oferecer, toda manhã, um belo e apetitoso prato de frutas?
As refeições, na minha antiga casa, eram simples mas sempre apetitosas, isso minha mãe conseguia muito bem. As massas e molhos não eram gordurosos nem empapados, os temperos, naturais e variados, carnes e peixes sempre acompanhados de muitos legumes e saladas. Estas eram preparadas com muita variedade diária, usando alfaces de vários tipos, rúcula, rabanete, cebola, tomate, pepino, repolho, cenoura, pimentão, salsão, funcho, beterraba etc. Tudo formava um conjunto que agradava aos olhos e ao paladar. Infelizmente não herdei muitas de suas qualidades... rs
Foi na infância que aprendi a mastigar pedaços de hortaliças cruas, que ficam deliciosas mergulhadas em todo tipo de molho.
Apesar de ser uma cozinheira de mão mais ou menos vazia (rs), gosto muito de observar as inúmeras maneiras de combinar alimentos e também registrei mil formas de comportamento durante a refeição. Elas refletem desde o grau de percepção do paladar, até a importância dada à própria alimentação. Também fui pessoalmente objeto de uma observação desse tipo, uma vez que estava saboreando um sorvete e um senhor me perguntou onde o tinha comprado, tamanha a expressão de êxtase que ele disse ver em meu rosto. rs
Há pessoas que parecem comer por pura obrigação ou horário estipulado. Outras parecem esperar do alimento mais do que ele pode proporcionar, ou seja, algum tipo de compensação emocional, tamanha a avidez com que se atiram sobre o prato. Entre esses extremos, existem inúmeras variações e são frequentes os casos em que a pessoa se levanta da mesa frustrada ou insatisfeita.
Parece-me que o maior ou menor prazer, o grau de satisfação ao terminar-se uma refeição, depende tanto do alimento quando do modo de se alimentar. E o único termômetro só pode ser a percepção pessoal. Não faz sentido querer medir até que ponto outra pessoa saboreou o alimento, ou se a refeição foi satisfatória. Por outro lado, cada indivíduo precisa prestar atenção ao modo como se alimenta, para que a refeição possa se tornar cada vez mais agradável. Comer no piloto automático não é nada satisfatório...
Tenho percebido que uma pessoa extrovertida aproveita melhor o alimento se estiver em boa companhia, por mais que se tente provar que é melhor fazer-se silêncio às refeições. Quem gosta de ler enquanto come não deve deixar de fazê-lo, pensando que isso desvia o sangue da digestão. Eu mesma gosto de ter o duplo prazer da leitura e da refeição, quando como sozinha. Duplo prazer, porque consigo me concentrar nas duas coisas. Como? Mastigando bem devagar, ensalivando cada bocado de alimento. Aliás, aí está um dos grandes segredos da alimentação: desde os conselhos da vovó até à macrobiótica, a mastigação lenta e demorada é consagrada como a melhor forma de se garantir boa digestão e assimilação do alimento. É também o trunfo de quem quer emagrecer ou diminuir a quantidade de comida às refeições, pois quem mastiga bem sente muito mais o sabor do alimento e não fica com a sensação de vazio provocada pela rápida trituração e deglutição; sensação de vazio ou... de peso no estômago, nos dois casos o prejuízo é certo.
Aí também precisa prevalecer o bom senso. Não faz sentido estipular que se deve mastigar cada bocado X vezes automaticamente. Muitos chegam simplesmente à conclusão de que não conseguem mastigar devagar e desistem de tentar. Em lugar de tentativas mecânicas, vale a pena demorar-se um pouco mais a saborear cada bocado, antes de engolir. Aos poucos, a mastigação torna-se mais lenta, sem esforço. Quem come com prazer e atenção levanta da mesa satisfeito e assimila bem o alimento. Será que acontece o mesmo a quem arranja uma discussão durante a refeição, se irrita com leituras desagradáveis ou assiste a alguma cena chocante no telejornal?... Lembro o antigo ditado de que o que entra pela boca é contaminado pelo que está na mente.
Essa sabedoria de que tudo tem que ser feito com prazer, lentidão e atenção, você vai encontrar principalmente nos livros de Moshe Feldenkrais*, esse missionário da consciência pelo movimento, que soube fazer uma releitura de ensinamentos antigos à luz da ciência contemporânea, chegando a soluções tão simples quanto as que relatei acima. Leia também o capítulo 14. A arte de curar.
Se você teve a paciência de chegar até aqui, sugiro que faça uma retrospectiva dos seus hábitos alimentares, para que perceba até que ponto é consciente da sua forma de se alimentar, ou se age de forma adquirida, seguindo uma rotina automática. E a sua alimentação, lhe satisfaz? Lhe causa algum problema de saúde (queimação, refluxo, peso no estômago etc)? Você tem bom apetite, ou geralmente come apenas porque está no horário da refeição?
Essa revisão é necessária de tempos em tempos, para evitar que prejudiquemos nossa saúde ou que aceitemos passivamente mudanças de fora para dentro, seguindo opiniões alheias ou lugares comuns. Precisamos procurar nosso próprio eixo de equilíbrio, pois as consequências dos nossos hábitos alimentares recairão sobre nós mesmos e não sobre os nossos pais, que nos condicionaram, nem sobre quem nos impingiu qualquer modismo. Cada um precisa ter uma visão própria da finalidade e do valor da alimentação. Enquanto não houver um questionamento a respeito, todos tendem a achar ÓBVIO o seu jeito de se alimentar.
Um dia, ao conversar com uma moça sobre a alimentação dos meus filhos, ela se espantou: Como? Eles não comem comida normal? Pedi que me explicasse o que entendia por comida normal. Ela respondeu: Arroz, feijão, o que todo mundo come!
Se essa moça, que era jornalista, tivesse refletido um pouco antes de falar, não teria chegado à conclusão de que todo mundo come arroz e feijão. No entanto, a espontaneidade com que ela se expressou demonstra que havia herdado sem contestação esse hábito alimentar e que não lhe passava pela cabeça que sua alimentação poderia ser, em outras circunstâncias, Knackwurst mit Sauerkraut (salsicha com chucrute).
Fazendo um pequeno parêntese, esclareço que meus filhos sempre comeram TAMBÉM arroz com feijão, que é aliás uma combinação completa, junto com hortaliças, nozes e castanhas. De qualquer forma, as opções alimentares de cada um precisam ser respeitadas - desde que sejam realmente opções e não apenas aquilo que se entende por... normal. Nesse caso, vai bem uma provocação. rs
Já vimos em outros capítulos que a alimentação pobre em nutrientes e rica em aditivos, aos poucos, desgasta o organismo. No entanto, existem pessoas que herdam uma constituição física extraordinariamente forte e cujo organismo só se ressente da alimentação pobre apenas na meia idade ou na velhice. Isso, sim, acontece, mas não serve de exemplo, são exceções que confirmam a regra. É porém direito de cada um preocupar-se ou não com a qualidade de vida. Se alguém prefere viver um dia de leão em lugar de cem anos de carneiro, é um direito que lhe cabe. Aliás, quem pode mesmo estar certo de que terá vida longa?... Não estou aqui defendendo o descaso ou a irresponsabilidade. Apenas acho que ninguém muda DE VERDADE o próprio modo de pensar ou agir, por influências puramente externas. A mudança real vem de dentro para fora. Os estímulos são fundamentais, mas só funcionam quando há sintonia entre o receptor e o... recipiente. Essa é uma lei da Natureza, não apenas um delírio da Giulia. rs
Assim, a escolha do alimento não pode ser imposta de fora para dentro. Se a pessoa faz da própria alimentação um sacerdócio, ninguém tem o direito de contestar. No entanto, sacerdotes gostam de fazer proselitismo, por isso seus adeptos precisam ter senso crítico suficiente para saber onde estão pisando...
A influenciação não refletida pode ter consequências graves ou até levar à morte, como já aconteceu a algumas pessoas que não compreenderam em profundidade os ensinamentos da macrobiótica e se entregaram ao fanatismo. Eu vi isso acontecer há algumas décadas e espero que não ocorra mais... Essas pessoas haviam se imposto regimes ou jejuns mal orientados e perderam a vida antes que pudessem remediar. A macrobiótica é uma bela doutrina, mas é preciso fugir de fanatismo ou extremismos. Naquela época, alguns macrobióticos se embaralhavam na definição do yin e do yang, essas forças que de acordo com a filosofia oriental regem o funcionamento do universo. Para nós, ocidentais, que não recebemos essa tradição dos nossos ancestrais, vale mais a pena compreender o princípio dos opostos que se complementam, do que embarcar em posições rígidas.
Um dia - bem naquela época em que a AIDS ceifava vidas à vontade - fiquei pasma ao ler um artigo de macrobiótica que me colocava, a mim, no grupo de risco que poderia pegar a doença. E por um motivo muito pobre, por ser consumidora de laticínios, considerados uma aberração da natureza. Gostaria de ter revidado para o articulista, dizendo que nunca ouvi falar de alguém que tenha adoecido por consumir iogurte, o glorioso laticínio que há milênios garante a longevidade e a saúde dos povos dos Balcãs. Ao contrário, não posso dizer o mesmo a respeito dos regimes macrobióticos...
Certas generalizações são perigosas, porque põem no mesmo saco coisas bastante diferentes: quem tem o hábito de tomar uma coalhada fresquinha no desjejum, dificilmente se sentirá bem ao substituí-la por uma porção de queijo gorgonzola... Quero dizer que pode existir uma diferença brutal entre um ou outro laticínios - da mesma forma que podem existir enormes diferenças entre seres humanos, mesmo irmãos ou gêmeos. Tudo pode ser consumido, com moderação e bom senso. A não ser que haja uma repulsa natural para um determinado alimento. Essa pode ser uma mensagem do organismo para que se evite uma eventual agressão. Por isso não se pode obrigar uma criança e engolir à força um alimento que lhe dá enjoo. Até porque dentro de algum tempo ela poderá passar a gostar, se não tiver sido forçada anteriormente...
Quem sentir a necessidade de mudar seus hábitos alimentares precisa ter discernimento e não deixar-se levar por pessoas ou programas que prometem efeitos mirabolantes ou imediatos. Se você resolve seguir um regime, precisa ter senso crítico suficiente para avaliar as etapas do tratamento e eventualmente suspendê-lo, se for o caso. Os macrobióticos que me perdoem, mas vou usar novamente sua doutrina como parâmetro, sem ressentimentos... rs Esse regime alimentar pode ter extraordinário efeito desintoxicante, mas é nisso que se encontra o perigo, quando não há uma boa orientação. O processo de eliminação das toxinas não deve ser brusco demais, sob o risco de acarretar consequências graves. O jejum precisa ser bem dosado, pois durante o seu curso o organismo atira na circulação do sangue as toxinas depositadas nos tecidos. Essa enxurrada de toxinas, se não for bem diluída com ingestão suficiente de água ou de sucos de frutas (muitas vezes rejeitados pela macrobiótica...), pode provocar uma verdadeira auto-intoxicação, tão grave quanto for a desidratação do organismo. Se você achava que o jejum mata de fome, saiba que o verdadeiro motivo não é a desnutrição, mas a intoxicação. Já havia pensado nisso?...
Há alguns anos, eu ficava intrigada ao refletir sobre esse mecanismo. Hoje eu sinto na pele como funciona a desintoxicação do organismo. Quando, às vezes, abuso de um alimento que carrega muitas toxinas para o meu organismo, sinto como que uma sensação de secura - não propriamente sede, em toda a boca e no resto do corpo. É como se eu me tornasse mais pesada, enfim, sinto a necessidade de diluir o sangue, de alguma forma. Tomo bastante água, sucos, e às vezes preciso comer frutas com bagaço para me sentir melhor.
Se somos o que comemos, precisamos escolher a dedo nosso alimento. Aqui, também, não adianta chorar sobre o leite derramado. Sempre é tempo de recomeçar, acredite!
* Mário Sanches - SAÚDE PELA ALIMENTAÇÃO CORRETA
* Moshe Feldenkrais - CONSCIÊNCIA PELO MOVIMENTO (há outras citações a respeito do grande Moshe Feldenkrais, em outros capítulos.)
(Na dúvida sobre a ordem dos capítulos deste livro, volte para o Índice.)

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